terça-feira, 10 de julho de 2012

MACACÃO(ZINHO)

De macacão de calça eu sempre gostei. A primeira imagem que me vem à mente quando ouço falar sobre é uma coisa meio Farrah Fawcett, anos 70, cabelo com volume, silhueta esguia, glamour sexy, e tudo que uma mulher pode querer parecer ainda nos dias de hoje.

Macacão de shorts costumava soar mal aos meus ouvidos. Imaginava sempre aquele tipinho que tem um elástico na cintura, do tipo que faz a bunda parecer comprida e nunca para exatamente na altura que você espera, sabe? Mas aí, virou tendência, eu comecei a ver boas variações e tirei o preconceito do coração.

Se você ainda o tem, tente olhar com imparcialidade as fotos a seguir. Com bom corte, boa cor, boa estampa, ele vai ser uma boa alternativa aos vestidinhos no verão. Para quem já aderiu aos shorts, é um passo, bem pequeninho.

pussylequeer.tumblr.com





sexta-feira, 6 de julho de 2012

L.A. SUNDAY




Too odd to start at the end? But c'mon, this is just my style ...
My last day trip was in Los Angeles, all by myself in a beautiful summer Sunday. Not that I have too much authority to act as a guide for the city that I knew for no longer than seven days, but I had a good day and so I think it's only fair to share it.

First of all, I gotta say that LA was never my dream destination. I had a certain prejudice. For me, the city came down to Beverly Hills and Hollywood, and they didn´t quite made me interested. I ended up there because my sister was studying at UCLA and, making the long story short, the family planned a trip to "get her back".



On Sunday, everyone boarded back to Brazil but me, who had scheduled my flight to Monday. I rented a car and went to see what was there to do. During June and July, the day starts cloudy, as a resident told me, and around noon the sun appears high and shiny.

My first stop was the Farmers Market, which I had already visited, but I knew I could find gifts that were still missing. It is quite a tourist spot, with a food court with lots of variety of fruit and food stands. At the same place, a shopping center where the best brands surround one of those dancing fountains. Like I said, very tourist like. But pleasant, especially on a sunny afternoon.



The second target was suggested by Andreia, who lived there and loves a flea market. The Fairfax Trading Post happens every Sunday, at the corner of Fairfax and Melrose Avenue, and is one of the best flea markets I've been to (a suuny day and beautiful people scored many points). For $ 2 entry, you will find furniture, records, art, wonderful empanadas, and what charmed me most, tents specializing in old boots separated by style, vintage band shirts, corsets and custom jewelry made from pieces of the beginning of the 20th Century.






Taking advantage of having no one telling me not to cut my hair which was already at my waist line, and also the fact of being in a suitable neighborhood, I left the fair and went looking for a hair salon. I had already done a GPS search and knew that there were at least two at that point of Melrose, I just had to check whether they were  open on a sunday. The first one I saw was charging $ 85 a haircut, and I thought, kind of expensive for a mini-madness. I sympathized for the second one right away, and despite the grumpy clerk, I knew I wanted to cut my hair there even before asking the price.



Luckily, it was much more reasonable. Rudy's Barber Shop is an interestingly decorated, and as I found out only after getting their business card and looking at  their website, a story beyond friendly and a promise that could not suit more perfectly with what I expected that day. On the home page you read: "If you wake up in the morning and decide you need a haircut, you don’t have to wait 3 weeks for an appointment ... You can walk into any Rudy's any day of the week and get a great haircut." They were founded in Seattle in 1993. Nothing more grunge, uh ... On the ‘About’page you find a cool video that talks about it and show all address (they´re in Seattle, Portland, Los Angeles and NY).



You know, I believe in signs. And I got rid of about 30 cm of hair! Trista, a super nice girl who was born in Orange County, was responsible for grooming, and could not have better understood my expectations. You know you made the right decision when you think why haven´t I done this before, huh?

And so, I went a few pounds lighter to the hip hop party that I wanted so much to know, The Do-Over, in Hollywood. To my disappointment, arriving there the queue was too big and I quit. But for those who like that sort of sound, I'm sure it's worth. You could see that it was on fire!



Was already getting late, and I was getting hungry. I decided to go to Westwood for a walk and eat something. The neighborhood is very close to UCLA and I had already become familiar with it. There are some interesting shops and a climate of movie set, I can not explain why. I ate a pretty decent falafel sandwich and went back to the hotel with a great impression of the city.



Luckly, when I arrived in Sao Paulo the weather was warm, otherwise I would be longing for the trip much worse!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

DOMINGO EM L.A.


Estranho começar pelo final? Mas vamos lá, que esse é meu jeitinho...
Meu último dia de viagem foi em Los Angeles, na companhia de mim mesma e num domingo lindo de verão. Não que eu tenha muita autoridade para atuar como guia de uma cidade que eu conheci por não mais que sete dias, mas eu tive um dia bem gostosinho, então acho justo compartilhar.

Antes de tudo, é preciso dizer que L.A. não era meu destino dos sonhos. Tinha um certo preconceito. Para mim, a cidade se resumia a Beverly Hills e Hollywood, e nada disso me despertava muito interesse. Acabei parando lá porque minha irmã estava estudando na UCLA e, resumindo, a família planejou uma viagem para "buscá-la".

olha eu ali!


No último domingo, todo mundo embarcou de volta para o Brasil, menos eu que tinha marcado meu vôo para segunda. Peguei um carro e fui ver o que tinha para fazer. Nos meses de junho e julho, os dias amanhecem nublado, como me explicou uma moradora, e por volta do meio-dia sai aquele sol de rachar.

Minha primeira parada foi o Farmers Market, que eu já tinha visitado, mas era o lugar onde eu sabia que podia encontrar os presentes que ainda faltavam. É um ponto bastante turístico, com uma praça de alimentação com muita variedade, de barracas de frutas e de comida. No mesmo lugar, um centro de compras onde as melhores marcas rodeam uma daquelas fontes dançantes. Como eu disse, bastante turístico, mas agradável, principalmente numa tarde ensolarada.



O segundo destino foi sugestão da Andréia, que morou lá e adora um flea market. A Fairfax Trading Post acontece aos domingos, na esquina entre a Fairfax e a Melrose Avenue, e é um dos melhores mercados de pulgas a que eu já fui (um dia de sol e gente bonita contaram muitos pontos). Por US$ 2 de entrada, você vai encontrar móveis, discos, arte, empanadas maravilhosas, e o que mais me encantou, barracas especializadas em botas usadas separadas por estilo, camisetas de banda vintage, corsets customizados e bijouterias feitas com peças do começo do século XX.










Aproveitando que não tinha ninguém que fosse me convencer a não cortar meu cabelo que já chegava na cintura, e também o fato de estar numa vizinhança adequada, eu saí da feirinha e fui procurar um salão de cabelereiros. Já tinha feito uma busca pelo GPS e sabia que existiam pelo menos dois naquela altura da Melrose, restava saber se estariam abertos em pleno domingo. O primeiro que eu vi aberto cobrava US$ 85 pelo corte, e eu pensei: meio caro para uma mini-loucura. Pelo segundo eu simpatizei na hora, e apesar do atendente mal-humorado, decidi por ele antes mesmo de perguntar o preço.



Por sorte, era muito mais razoável. O Rudy´s é uma barbearia com uma decoração interessante e, como eu fui descobrir só depois de pegar o cartão deles e entrar no site, uma história para lá de simpática e uma promessa que não podia ter mais a ver com o que eu esperava naquele dia. Na página inicial deles, se lê: "Se você levantar de manhã e decidir que precisa de um corte de cabelo, você não tem que esperar três semanas por um horário... Você pode entrar em qualquer Rudy´s em qualquer dia da semana e ter um corte de cabelo incrível". Eles foram fundados em Seattle, em 1993. Nada mais grunge, ahn... Na página deles tem um vídeo bacana que fala disso e os endereços todos (tem em Seattle, Portland, Los angeles e NY).

clima 'Z Carniceria'



Sabe como é, eu acredito em sinais. E lá fui eu me livrar de uns 30 cm de cabelo! A Trista, uma menina mega simpática que nasceu em Orange County, foi responsável pela tosa, e não poderia ter entendido melhor as minhas expectativas. Você sabe que tomou a decisão certa quando pensa por que não fez isso antes, né?!

E assim, eu segui alguns gramas mais leve para a festa de hip hop que eu queria tanto conhecer, The Do-Over, em Hollywood. Para minha decepção, chegando lá  fila era muito grande e eu acabei desistindo. Mas para quem gosta desse tipo de som, tenho certeza que vale a pena. Dava para ver que o negócio tava animado!

A Do-Over é do ladinho da Amoeba Music de LA

Já tava ficando tarde, e eu com fome. Resolvi ir para Westwood, dar uma volta e comer alguma coisa. O bairro fica bem perto da UCLA e eu já tinha ficado meio familiarizada. Tem umas lojinhas interessantes e um clima de cenário de filme, não sei explicar bem por quê. Comi um sanduíche de falafel bem decente e voltei para o hotel com uma ótima impressão da cidade.


Sorte que cheguei em São Paulo em pleno veranico, se não ia ficar com muito mais saudade da viagem!

SÃO PAULO SEM CARRO (?)



Li hoje sobre o lançamento desse livro. Tenho pensado muito sobre isso: São Paulo, carro, utilização de espaço público. Minhas últimas duas viagens tinham sido para a Europa, onde não ter carro faz muito mais sentido, e agora, voltando dos EUA, ficou muita clara a diferença de utilização do espaço público que se tem nas cidades dependendo do quanto de transporte público (de qualidade) cada uma oferece e de quanto seus habitantes estão acostumados e/ou dispostos a utilizá-los.

Mesmo entre Rio de Janeiro e São Paulo dá para notar o contraste. A justificativa mais comum é o tamanho das cidades. Eu ainda tenho dúvida sobre o que causou o quê no fim das contas. Me pergunto ainda se o perfil dos moradores define a maneira como a cidade se dispõe ou se, ao contrário, a cidade molda seus moradores. Acho que um pouco dos dois, até porque não existe resposta certa para uma pergunta dessas.

O Thiago Blumental escreveu sobre o assunto, no post mais sincero e verdadeiro que eu li sobre. Confesso que desde então me questiono sobre vender ou não meu carro, porque me sinto ridícula de não saber pegar ônibus na minha própria cidade. Burguesinha! Tirando as questões ambentais e de qualidade de vida, me interessa o viés psicológico dessa história toda. Quanto o ego tem influenciado no dia-a-dia em São Paulo, até nas relações?

Nós, burguesinhos que reclamamos de passar cada vez mais tempo no trânsito, somos os mesmos que dedicamos nossos melhores anos a ganhar dinheiro para comprar um carro melhor, a cada vinte, trinta meses, tão logo acabem as prestações do último. E a gente acha que tem liberdade, hahaha. Ter o carro que combina com a nossa personalidade, conforme a indústria publicitária nos faz acreditar, vira quase obrigação. Que homem não quer ser visto no carro que remete a adjetivos como "dinâmico", "bem sucedido", "forte", ao sair da "balada"? Eu chego a ter pena.

Pena porque, para começar, que tipo de personalidade tem uma pessoa que compra uma propaganda dessas? Que acredita que o seu carro vai dizer mais sobre si do que a sua própria pessoa (Pensando bem, tem gente que tem se comunicado melhor pelo que tem do que pelo que é)? A mesma das mulheres que seguem as "dicas de amiga" da blogueira da high society. Essas pessoas compram o que impoem a elas achando que vão se tornar irreprimíveis. Eu olho e só consigo ver insegurança, não posso pensar num jeito mais rápido de diagnosticar.

Fora isso, sofre nossa noção de utilização de espaço público, que eu comecei citando. Andar sempre dentro de um carro nos afasta da cidade. Já reparou como a gente não se apropria dela, mesmo sendo obrigado a pagar tantos impostos? A gente não conhece nossos próprios direitos e assim fica também sem ter como exigi-los. O governo e os políticos adoram, pode ter certeza. A gente acaba se afastando também das pessoas, de tal forma que até um contato com o vizinho no elevador passa a ser incômodo. Eu conheço gente que espera o próximo só para não passar pela experiência constrangedora de não saber sobre o que conversar naqueles 60 segundos eternos.

Eu comecei falando de uma coisa e acabei chegando a outras conclusões, porque no fim das contas, tudo interfere em tudo. Me incomoda porque esse ciclo vicioso de um mercado que se aproveita das inseguranças das pessoas gera ainda mais gente insegura e, consequentemente, uma sociedade mais chata de se viver. Outro motivo para eu escrever é que eu acho que tem solução, se cada um pelo menos tentar identificar as razões por que consome, inventar outras atividades que diminuam suas frustrações, que não só comprar, a gente já consegue melhorar um pouquinho a vida. E, por que não dizer?, o trânsito.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

HOJE É DIA DE FUTEBOL!

Desculpa a mudança repentina de assunto, mas hoje é dia de futebol! E esse é o texto que melhor explica a dor e a delícia de ser corintiana, como eu sempre fui.
Pele arrepiada, lágrimas e muito, muito sofrimento é o que se espera do dia de hoje, desde que ele começou. E é por isso que eu não consigo escrever sobre mais nada!

Até amanhã!




Milly Lacombe

Não é verdade que só o corintiano sabe o que é ser corintiano. Eu não sou corintiana e vou contar que sei o que é ser corintiana.
Também não é verdade que o corintiano já nasce assim. Eu não nasci corintiana. Não fui, e não sou, corintiana até meus 30 anos – há 13, portanto.
É por isso que na pele de uma autêntica não corintiana posso dar meu depoimento sobre o que é ser corintiana.

Sou torcedora do Fluminense. Cresci tricolor de coração, graças a meu pai, que depositou em mim o amor pelo Flu e, acima de qualquer crença, pelo futebol – e a quem, por essa e infinitas outras, devo eterna gratidão.
Fui uma criança fanática pelo jogo de bola, para desespero de minha mãe, que preferiria me ver de cabelos penteados e brincando de boneca.
E, como qualquer criança abençoada pela paixão clubística, aos sete anos, muito por culpa de Zico, eu tinha plena noção do que era sofrer.
Aos oito, já tinha entendido que não seria possível passar por essa aventura terrestre sem mergulhar em profunda dor.
E aos 10, mesmo não sabendo disso de forma racional, intuí que, de todas as grandezas do futebol, ensinar a sofrer talvez fosse a maior delas.
Passei pela adolescência tendo em mim o registro de sofrimentos profundos e a consciência de que deles eu sairia.
Não sei como teria conseguido atravessar os momentos mais escuros da vida adulta sem esse entendimento
Por isso, graças ao jogo, saí da adolescência com a noção de que, assim como nossa própria existência, o futebol não deve ser explicado ou reduzido a estatísticas, sob pena de tirarmos dele a maior de suas belezas.

Exatamente como o ser humano, que quando dissecado perde a alma, o futebol se decompõe se visto sob ótica puramente aritimética.
Trata-se de um jogo que deve ser, acima de tudo, sentido.
Entrar no Maraca e me misturar aos que estavam vestidos como eu, aos que cantavam como eu, aos que vibravam comigo e, especialmente, àqueles que sofriam minha dor passou a ser fundamental.
Não há no mundo comunhão maior do que dividir com alguém o sofrimento.
Muito mais do que na alegria, é na dor que nos reencontramos.

A torcida do Fluminense nunca foi a maior, mas sempre me emocionou às vísceras. Na vitória e na derrota.
Estar ali quando Washington colocou, de cabeça, a bola nas redes aos 48 do segundo tempo durante o mata-mata de Libertadores foi das experiências mais sobrenaturais que já provei.
A mesma sensação de fazer amor com a mulher de seus sonhos, de ficar entorpecida de paixão depois de uma noite de total entrega, de acordar no dia seguinte e pensar que o mundo é lindo, que a vida vale a pena, que experiência humana não é em vão, que existe um motivo.
O Fluminense fez isso por mim.
Incontáveis vezes, desde os meus cinco anos, o Fluminense me fez estar possuída por um Deus.
Nada glorifica mais do que a vitória, ainda mais quando ela nos é oferecida no finalzinho do jogo.
Mas não demorei a entender que só uma coisa nos humaniza – a derrota.
Só ela nos solidariza, nos une, nos resgata da ilusão.
O caos é, afinal, a origem de tudo. A partir dele, nos formamos e amadurecemos.
Enquanto isso, a vitória tem a diabólica qualidade de revelar nosso lado mais pernóstico, egocêntrico e arrogante.
Vencer é preciso, mas perder é fundamental – e isso o futebol me ensinou.

Em 1976, já morando em São Paulo, por motivos óbvios odiei o Corinthians acima de todas as coisas e declarei, na nova cidade, que seria são-paulina, movida pela vã ilusão de que um time você pode escolher como pega uma calça jeans na loja – experimentando e tornando sua aquela que melhor servir.
O São Paulo era escolha natural; time de meu irmão e tricolor como meu Flu.
Até pegar o São Paulo como segundo time, até ver o meu Maraca dolorosamente invadido em 1976, gostava de dizer a quem perguntasse que, em Oslo ou em Xangai, eu era torcedora do Fluminense.
E sonhava com o dia em que seria famosa, concederia educadamente uma entrevista e declararia ao entrevistador: Sou Fluminense aqui, na China e na lua. A resposta estava pronta desde os cinco anos.

Em 1977, mobilizei a casa aos prantos, gritos e esperneios exigindo que me levassem ao Morumbi para ver o Corinthians perder para a Ponte. Era minha forra particular.
Minha mãe, exausta com aquele escândalo, me arrastou pelos braços e me levou ao jogo, sob protestos de meu pai que dizia que éramos loucas.
Éramos. Somos.
Em dias de jogos normais, ao Morumbi íamos meu pai, meu irmão e eu. Depois, Sergio, o primeiro namorado e o primeiro namorado são-paulino em minha vida. Depois, Marco Fabio, o segundo namorado são-paulino, com quem eu passava tardes de domingo no Morumbi, para onde íamos a pé de sua casa.
Os anos foram seguindo e, diante da necessidade de esconder minha homossexualidade, o futebol perdeu um pouco do colorido.
Permanecer dentro do armário bravamente era meu único objetivo – e esse troço dava trabalho demais.
Em 1996, fui morar na Califórnia e, ainda sem a conveniência de um canal internacional de jogos e com a internet engatinhando, acabei me afastando completamente do esporte que tanto amei.
O que se revelou uma benção, porque não vi meu Flu na terceira divisão, embora alguns colegas de infância tivessem se dado ao trabalho de me zombar além-mar.

De volta a São Paulo depois de seis anos, desembarquei em família vitaminada por são-paulinos: fora o irmão, agora um total de três sobrinhos e dois cunhados completavam o elenco tricolor.
Minha mãe, italiana que chegou ao Brasil aos 15 anos, largou o Palmeiras e, em nome da alegria da prole, se fez são-paulina.
Foi quando se consumou a tragédia.
Já namorando mulheres oficialmente, acabei me apaixonando por uma que tinha esse grave defeito: torcia para o Corinthians.
Torcia, modo de dizer.
Descabelava-se. Chutava pé de mesa. Virava cambalhotas. Arrancava o couro cabeludo.
Tive, portanto, nenhuma chance de dizer não quando ela, sabendo de meu interesse pelo futebol, fez o convite para que fossemos ao Pacaembu.
Pacaembu, palco estranho naqueles meus 25 anos de vida em campos de futebol. Maracanã, Laranjeiras, Morumbi e até Canindé me eram mais familiares. Mas, resignada pelo poder da nova paixão, me arrastei com ela para o estádio.

Corinthians e Internacional. Jogo que não valia muita coisa, mas a casa estava cheia.
Na numerada, me comportei como deve se comportar o torcedor misturado aos rivais: da forma mais discreta possível. E logo no primeiro tempo, a alegria: gol do Inter.
E nessa hora o tempo deu uma parada.
Quem freqüenta estádios sabe que não há silêncio mais profundo do que aquele que se faz depois do gol do time de fora. Duro, seco, melancólico. A falta de som que só a incredulidade oferece.
Por outro lado, para o invasor invisível, trata-se de um silêncio repleto de prazer, cheio de doces nuances – ah, como é bom saborear a dor do rival olhando dentro dos olhos dele. Tão demasiadamente humano.
Foi precisamente esse silêncio que eu esperava ouvir naquela tarde.
E talvez tenha sido esse o instante em que tudo mudou. Talvez. Quase dez anos depois, não tenho como precisar.

Estava eu remoendo minha alegria solitária de ver o Corinthians sofrer um gol quando a torcida explodiu gritando Timão Eô Eô.
O que era aquilo? Que imbecis, pensei. O gol foi contra eles. Tontos. Malucos. Loucos.
Levemente chocada, tive que rir um pouco mais da atitude patética.
Naquela tarde, um sábado se não me engano, saí do estádio ainda sem saber que tinha sido para sempre alterada.
Os meses se passaram e eu repeti incontáveis vezes as idas ao Pacaembu.
Buscava, hoje sei, ouvir novamente uma torcida explodir na hora indevida.
Buscava a comemoração de um carrinho no meio de campo. Buscava contemplar a paixão de uma torcida capaz de vibrar com a bola chutada para a arquibancada, capaz de cair de joelhos por um lateral bem batido, capaz de começar a cantar o hino do clube sem motivo no meio de um jogo que nada vale.
Buscava o inimaginável, o impossível, aquilo que só os doidos, os alucinados, os destemperados alcançam. E o Corinthians foi me dando tudo isso, como que por encomenda.
Entrar no Pacaembu no embalo do canto da fiel passou a ser o que mais queria durante a semana. Sentir a pele arrepiada, os olhos cheios d’agua ouvindo 30 mil vozes vibrar com um gol sofrido. Doidos que me encantavam. Malucos que me provavam viva.

Até que um dia me peguei aos prantos depois de uma derrota.
Dizem por aí que o corintiano se revela na dor. Meu corintianismo, pelo menos, foi assim revelado.
O Fluminense me ensinou a sofrer, me mostrou que a alegria e o êxtase só podem ser colocados em perspectiva diante do registro da dor e do desgosto.
E o Corinthians me ensinou que podemos entrar na dor e saboreá-la de um jeito estranho, mas necessário. Que podemos deixar que ela fique ali, que cumpra seu papel, que continue a nos humanizar e a nos revelar.
E que talvez exista uma forma de celebrá-la, de ritualizá-la, de deixar que ela nos reconecte à realidade – uma propriedade que só a tristeza oferece; nunca a alegria.
O Corinthians me mostrou que existe poesia na dor.

Acho que quase todo mundo já experimentou a agridoce sensação de se apaixonar por alguém que não devia. De se sentir traindo um grande amor. De se envergonhar pelo sentimento inadequado.
Foi isso o que senti naquele dia. Estava apaixonada por um time que não era o meu. Doida de amor por cores que não eram as corretas.
Meu pai, que me deixou cedo demais, talvez pudesse me entender; ou, como fazia tão bem, me explicar. Mas ele não estava mais.
Amar duas pessoas não é impossível, como quase todos sabem. Socialmente, e por convenção, temos que a paixão dupla é proibida, é imoral, é vergonhosa.
Entre paredes, entretanto, sabemos que não é bem assim.

Virei uma ilha. Única alvinegra cercada por uma multidão de são-paulinos: nove sobrinhos, um irmão, dois cunhados e, mais recentemente, o amor de minha vida, a mulher com quem passarei os próximos 50 anos, se ela assim deixar.
Eram, até o fechamento desta edição, 13 – ou 14 se contarmos outro tricolor por quem me apaixonei, Mauricio Svartman -, a me perseguir e me azucrinar.
Para minha desgraça particular, são são-paulinas as pessoas que mais amo no mundo.
Mas experimentar esse corintianismo me permitiu alcançar um estado de espírito que, se atingido mais vezes e por mais pessoas, até por mim em diferentes situações da vida, poderia melhorar o mundo – você na pele do rival.
Você sentindo o que sente o outro. Você vivendo a dor e a delícia de ser seu próprio inimigo. A cura pela troca. A benevolência pela inversão de papéis.

Como nunca fui muito dada a convenções, decidi assumir as duas camisas.
Achando, claro, que dificilmente teria que conviver com a trágica situação atual: meus dois times liderando o campeonato.
Então, toda essa enrolação foi para dizer que os dias de rodada não têm sido fáceis. Sentimentos misturados, contradições dolorosas, sensações bipolares, saudade monstro de meu pai.
O que fazer?
Talvez o melhor seja mesmo tomar a atitude da menina que se vê flagrada pelo namorado enquanto saboreia um sorvete com o amante na praça em pleno sábado à tarde: pegar minha parte do doce, sair de fininho e deixar que se entendam.

IN ENGLISH



I've been thinking about writing some of my posts in english for a while, and now that I've just returned from my vacation in the US and I am writing stuff about it, I think it just makes sense. I made up my mind after giving my business card to Trista, the girl who has done my haircut, as I told her I would talk about Rudy's on my personal blog. I think it would be nice if she could actually read something. It's also because I realized how foreign people are more and more interested in Brazil and our lifestile lately. It's a good motivation for me to talk more about Sao Paulo and some other cities I visit from time to time (and a good excuse to travel around my own country more often).

I know my english is not always perfect, but the whole idea is to communicate! I accept critics and suggestions though, including gramatic corrections. It will be nice to improve in every way! Hope you like it!