segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

RECALCULANDO A ROTA


Como muitos sabem (e outros não), no final do ano passado eu fiz uma viagem com as minhas irmãs, a Andreia e Nathalia.Começou com uma vontade de realizar um sonho de adolescência, de fazer um curso na Central Saint Martins, e aí acabou tomando outras proporções pelo caminho. Resolvemos ir juntas, fazer um curso que fosse do interesse das três, virou viagem de um mês, e meio que um rito de passagem, já que entre uma coisa e outra eu decidi finalmente refazer minha trajetória profissional, voltando a trabalhar com a coisa pela qual eu sempre fui apaixonada.

Por isso tudo, até, existe esse blog agora, cujo único compromisso é refletir minha forma de pensar, não só sobre moda, mas sobre comportamento de uma forma geral. Porque desde que eu entrei na faculdade e comecei a tentar descobrir o que fazer da vida, eu tinha uma certeza e uma dúvida. Moda (roupa + estilo) sempre foi a minha, mas eu não me encaixava no estereótipo, do consumo desenfreado pelo consumo, do "certo x errado", da massificação de um certo estilo e de um certo comportamento.

Aí que depois de passar pela vida (e eu bem sei que não passei nem pela metade), eu finalmente achei um jeito de fazer o que eu gosto de um jeito que é o meu, sem me importar se o modelo tem antecedentes. Tem truque de styling, ideias de look, discussão sobre tendências, novidades da indústria, inspirações de vários tipos... É um processo de tentativa e erro, flexível, do jeito que eu acho que a vida tem que ser. O que eu vim fazer aqui é pedir que você participe, opine e critique. Eu quero ler, responder, promover o diálogo. Se você chegou até aqui, bem vindo(a)!

domingo, 5 de fevereiro de 2012

:: VALE A PENA :: TEMAKI, LIBERDADE E FRATERNIDADE

Temaki, liberdade e fraternidade
texto de Antonio Prata

Nossas elites não estavam todas lendo James Joyce quando foram atropeladas pelas hordas emergentes

Outro dia uma amiga tuitou: "Temaki de goiabada com cream cheese: pode?". Conhecendo bem minha amiga, logo entendi que não se tratava de uma censura gastronômica, mas de uma irônica indagação sociológica, como se este rolo de alga, doce e queijo cremoso nos lançasse, das encruzilhadas do país, seu desafio de esfinge: "Decifra-me ou devoro-te".

Às vezes um temaki é apenas um temaki -às vezes, não. Esta versão Romeu & Julieta é reflexo da ascensão econômica de milhões de brasileiros: uma canoinha tricolor trepidando no centro da pororoca social; uma insolente dentada do gosto popular nas pudibundas nádegas da sofisticação. Que marcas deixará essa mordida? Não sei muito bem, mas desconfio que se olharmos através deste temaki como quem espia por uma luneta -pupila no orifício menor do cone, o maior apontado para o mundo, cuidado para não lambuzar os cílios- talvez consigamos enxergar algo do Brasil que se aproxima.

Para os arautos do apocalipse, aqueles que veem neste sincretismo culinário (como, aliás, em todo sincretismo) um sinal do fim dos tempos, a classe C está invadindo o país com seu mau gosto e falta de educação, deixando por onde passa um rastro de Fandangos e acordes de Michel Teló. Aterrorizados ao verem o real e a melanina escorrendo para cima através das classes sociais, soltam resmungos como "esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária!" e sonham com os dias tão próximos e distantes em que a "gente diferenciada" queria emprego de doméstica, não estação de metrô.

Ora, quem pensa que o gosto da classe C ameaça uma suposta sofisticação estética não entendeu patavina do Brasil.

Em primeiro lugar, nossas elites não estavam todas escutando Mahler e lendo James Joyce até outro dia, quando foram atropeladas pelas hordas emergentes, de isopor no ombro e pré-pago na mão.

Em segundo, grande parte do que produzimos de culturalmente mais valioso, de Pixinguinha a Tom Jobim, de Aleijadinho à Tarsila do Amaral, do vatapá aos pratos do Alex Atala, é fruto do encontro do popular com o erudito, não de puristas isolados em torres de marfim. Foi isso o que os modernistas bradaram aos quatro ventos -já faz quase cem anos-, isso que os tropicalistas repetiram e remodelaram -lá se vão mais de quatro décadas-, mas que uma parte recalcitrante dos brasileiros se recusa a aceitar, ainda com delírios de um imorredouro projeto branqueador.

Não estou sendo ufanista. Estou sendo classista: classimedista. Lembremos de outro país onde a mistura de raças e heranças culturais, mais a criação de uma sólida classe média com o New Deal, a partir dos anos 1930, legou ao mundo o rock, o blues, o jazz, um bom quinhão do melhor cinema e da melhor literatura produzidos no século 20, além desse saudável desrespeito à tradição, pré-requisito para uma sociedade que se pretende igualitária.

Desrespeito que a gente vê num solo do Charlie Parker ou, por exemplo, num temaki de goiabada com cream cheese. Pode não ser a minha comida favorita, mas por que é que o meu gosto deveria se impor aos demais? Democracia é isso aí, pessoal. Que bom